O desafio das relações entre pais e filhos durante a pandemia

De acordo com a psicóloga e educadora parental, Fernanda Teles, é preciso respeitar o ritmo de cada casa, dar autonomia aos filhos e assumir os papéis parentais na íntegra.

Entre os inúmeros desafios impostos pela pandemia, dividir as 24 horas do dia de isolamento social entre os cuidados e atenção aos filhos, as atividades profissionais e as tarefas de casa pode parecer uma missão impossível. Não é raro ouvir pais exaustos emocionalmente, queixando-se de ocupar o “papel” do professor com os deveres de casa, sem saber como entreter ainda mais as crianças nas horas livres, como lidar com as frustrações, tristeza e angústia próprias e dos filhos, encerrando o dia com a sensação de que a rotina tem sido caótica com tantas demandas.

De acordo com a psicóloga, educadora parental e palestrante, Fernanda Teles, as famílias precisam se conscientizar de que elas podem auxiliar os filhos neste novo cenário. “Mais importante do que consumir horas a fio com metas inalcançáveis e exigências desnecessárias é ensinar aos filhos a terem autonomia. Orientar sobre planejamento, rotinas e a desenvolver habilidades para a vida”, discorre Fernanda Teles.

A especialista em parentalidade positiva acrescenta que cobranças sem sentido e em excesso deixam o ambiente doméstico tóxico. “Vivemos um cenário atípico e imprevisível, mas nem por isso ele precisa ser enlouquecedor e sufocante dentro de casa. Os filhos precisam de autonomia para fazer da tarefa escolar um momento prazeroso e inspirador”, acrescenta a educadora.

Fernanda Teles tem observado em alguns núcleos familiares uma falta de compreensão sobre esse período mais prolongado dentro de casa, que é o de estar verdadeiramente com as pessoas mais importantes de sua vida. “Vejo famílias perdendo uma oportunidade única. Vejo pais estressados, ocupados, altamente conectados com as telas e perdendo a chance de assumir os papéis parentais na íntegra. Não falta comida e nem televisão, mas há uma carência enorme de relações de afeto, respeito, gentileza e, consequentemente, da construção de um vínculo seguro”, descreve a especialista.

Segundo a psicóloga, a presença genuína deve guiar as relações parentais. “Ensinar os filhos a cozinhar, ajudar nas atividades domésticas, estimular a leitura e seu potencial criativo com novas brincadeiras, meditar ou rezar juntos, planejar o dia, ensiná-los a respeitar o horário de trabalho dos pais, são inúmeras as possibilidades de ficar com os filhos. Dedicar um tempo longe de distrações, do computador, do celular, pois são nos pequenos intervalos de conversa, na troca de olhares, abraços e brincadeiras que pais conseguem encher o tanque dos afetos dos filhos e de toda a família”, elucida a educadora parental.

Por mais que a paz impere no ambiente familiar, situações adversas e conflitantes com crianças ou adolescentes podem surgir e se intensificar em razão da pandemia, portanto, a recomendação de Fernanda Teles é manter o autocontrole. “Uma relação amorosa e respeitosa com nossos filhos constrói pontes. Gritos, castigos e punições constroem muros. Pontes surgem no equilíbrio de uma relação harmoniosa e muros no nosso desequilíbrio e descontrole emocional. Isso não significa que os pais não podem sentir raiva, mas precisam entender que o filho não pode ser um para-raio do seu descontrole, do seu estresse, do seu cansaço”, afirma.

A profissional separou algumas dicas que podem ajudar pais e mães com filhos pequenos a manter o controle e a harmonia dentro do lar, principalmente neste momento de quarentena:

Assuma, valide e expresse a sua raiva sem culpar ninguém: “A raiva surge da frustração, do cansaço, do esgotamento. A impaciência aparece, principalmente, nos momentos de estresse tornando insuportável qualquer descontrole dos filhos. É preciso assumir o sentimento sem culpas e recuar, buscando manter alguma calma para que as ações e palavras não sejam carregadas de violência. Não tem problema sentir raiva, como os pais vão agir apesar disso é que faz diferença”, orienta.

Respire profundamente e quantas vezes for necessário: “A respiração é a mãe do autocontrole. Antes de qualquer atitude, respire. Conte até 10 e respire mais um pouco. Muitas vezes o tempo em que você busca se acalmar também será o tempo em que a criança se abranda”, afirma.

Se afaste para não explodir perto da criança: “Quando for difícil manter o controle, e a situação parecer caótica, se afaste por alguns minutos. Deixe para gritar sozinho”.

Tenha empatia: “Antes de qualquer reação, tenha em mente que o filho é uma criança sendo criança. Crianças são seres humanos em desenvolvimento, não têm controle emocional, estão construindo o certo e errado a partir da socialização e somos nós, adultos, que precisamos dar as ferramentas certas para que se desenvolvam como seres humanos íntegros”, conta.

Evite o confronto em momentos de tensão: “Nunca tente provocar um enfrentamento ou ensinar algo enquanto a criança está nervosa ou chorando. Somente após acalmá-la você deve explicá-la de forma objetiva o que estava acontecendo, inclusive fazendo-a perceber que você ficou nervoso, com raiva, irritado. Isso é importante para a cria começar a entender os próprios sentimentos”, diz.

Estimule uma rotina saudável e flexível: “Mantenha minimamente uma rotina no ambiente familiar, com os horários das refeições, higiene e as sonecas. A rotina é importante para que a criança se sinta tranquila”, ensina Fernanda Teles.

Evite desgastes: “Pai e mãe devem evitar situações desgastantes quando estão muito estressados. Por exemplo, se você não está num bom momento para gerenciar os desafios de comportamento, evite situações que você sabe que geralmente são desgastantes”, aponta.

Não se culpe: “Tenha autocompaixão. Se for para sentir raiva porque brigou, gritou e se descontrolou, use a energia da culpa para fazer melhor da próxima vez. Foque em resultados positivos, e não no que já passou”, relata a educadora parental.

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