DEVER DE CASA: VILÃO OU SUPORTE PARA O APRENDIZADO ESCOLAR?

O BBB está aí, como sempre, gerando polêmicas e trazendo assuntos que se tornam foco de discussão nas redes sociais, tanto entre quem gosta, quanto para quem não assiste ao programa. E sem críticas se você assiste ou não, eu tenho aqui apenas uma indignação: usar a fala de um participante para questionar a educação que seu filho recebe na escola é um absurdo.

A situação foi a seguinte: Pedro Scooby fez uma declaração polêmica sobre o sistema de educação, que estabelece deveres para as crianças fazerem em casa no contraturno escolar: “O cara que criou o dever de casa criou pra punir as crianças, e a gente segue achando isso normal”, disse Scooby. Para ele, o método de educação no Brasil é antiquado e precisa ser revisto.

Sobre o método de educação no geral no Brasil ser antiquado eu concordo plenamente, mas não vou entrar nessa discussão aqui. O problema é que eu vi pais e mães que concordavam com a fala de Pedro Scooby questionando as escolas sobre as tarefas de casa sem o menor embasamento, minha gente. Baseados na fala do “cientista educacional” PEDRO SCOOBY. Essa é a opinião dele!!! Não é um estudo científico!!!

E como Pedro Scooby deu a opinião dele sobre a tarefa de casa, eu, que trabalho com educação há mais de 20 anos também quero dar a minha.

A história da lição de casa como castigo foi difundida em vários países depois que um professor italiano decidiu exigir que seus alunos fizessem dever de casa toda vez que havia problemas de indisciplina durante as aulas. Ninguém até hoje conseguiu comprovar se de fato ocorreu e se esse professor italiano de fato existe.

Mas independente de onde veio essa teoria, quero começar com uma reflexão: Faz sentido uma criança que fica boa parte do dia na escola ter que passar mais uma, duas ou três horas fazendo tarefas? Será que ela vai aprender mais, obter algum benefício? É justo com a família que tem tantas outras obrigações ter que acompanhar essa atividade? Vamos pensar juntos.

Pra mim, o que uma criança precisa DE VERDADE é de tempo para brincar livremente. Essa é uma atividade a ser levada a sério e que tem se perdido com as agendas lotadas de atividades extracurriculares e deveres de casa. O livre brincar, pra mim e muitos outros estudiosos da infância, é mais importante que aulas extras ou deveres de casa, pois a criança desenvolve habilidades de comunicação, criatividade, solução de problemas, compreensão do mundo, imaginação, iniciativa, autoconhecimento, autoestima, empatia, colaboração, foco, curiosidade. E o mais essencial de tudo: o brincar relaxa o cérebro e promove saúde mental e emocional.

Mas não pense que sou contra a tarefa de casa!!! Um tempo de dever de casa faz sentido sim, especialmente para crianças que passam pouco tempo na escola e quanto estamos falando de crianças mais velhas, acima de 7 anos e pré-adolescentes. Mas desde que o livre brincar não seja substituído por um longo dia exaustivo de tarefas de casa. O excesso sobrecarrega os pais, que já cansados, tendem a perder a paciência. As crianças ficam esgotadas e estressadas, sem tempo para relaxar e brincar. E o tempo para o convívio em família fica reduzido também.

A sobrecarga faz com que a criança associe aprender com algo chato e pesado. E a tarefa essencial da educação deveria ser acender a chama do desejo de aprender, em vez de encher a criança com conteúdo e memorização, que se esquece poucas semanas depois se não forem úteis. E o papel encorajador da família é fundamental para que o aluno não veja a lição como algo prejudicial e para que possa vencer o desafio da dedicação do tempo que o processo de aprendizagem demanda.

A acadêmica Gulnar Ozyildirim, da Universidade Akdeniz, da Turquia, publicou ano passado um estudo sobre a relação entre o tempo gasto com a lição de casa e o desempenho acadêmico. Na meta-análise, divulgada na revista científica espanhola “Psicologia educativa”, foram incluídos dados de 74 países e uma amostra de quase 500 mil estudantes. O estudo revelou que os alunos que gastam seu tempo com lições de casa no nível moderado tiveram efeitos significativos sobre seu desempenho acadêmico. A pesquisa também concluiu que a correlação positiva é maior em matemática do que em ciências e para os anos finais do que para os anos iniciais. Além disso, a frequência com que os deveres de casa são passados é mais importante que a quantidade.

PhD em neurociências pela UFRJ, Julie Wein corrobora com os pontos destacados no estudo. Ela acredita que a lição de casa tem um papel interessante na consolidação das memórias, e ressalta que, além da frequência, a qualidade é mais importante do que a quantidade.

O aluno precisa ser exposto várias vezes ao mesmo assunto, mas, para que isso tenha efeito, em todas as vezes ele precisa ter dormido bem, estar atento e ter motivação e interesse. Para isso é preciso planejamento, respeitar as pausas, relaxar e alternar as disciplinas. E não pode ser algo chato, tem que ser inovador, misturado, por exemplo, com artes,

Julie pontua ainda que é importante que o aluno tenha condições de resolver as questões sozinho.

Ou seja, como sempre, o importante é o bom senso e o equilíbrio. Se a criança tem uma lista infinita de atividades extracurriculares, chega da escola cansado, vai pra frente da tela, logo em seguida tem que fazer a tarefa e nunca tem tempo livre, os prejuízos são grandes. Mas uma tarefa de casa criativa, que a criança consiga desenvolver sozinha, estimulando assim sua autonomia, que tenha mais qualidade que quantidade e um tempo em casa saudável física e emocionalmente, só tem a contribuir com o desenvolvimento cognitivo da criança.

Que tal consultar a escola que você escolheu para compartilhar com você esse desafio que é educar para a vida? Que tal aceitar que estudar e aprender levam tempo e demandam sim atenção, energia, tempo dos pais, mães, responsáveis.

Vivemos uma era em que já existem muitas pesquisas sobre como o aprendizado se processa no cérebro do aluno e não podemos de forma alguma nos guiar por uma fala de um participante do BBB. Na era da falta de equilíbrio entre tempo de tela e convivência em família, estudar vai continuar a ser um desafio. Assim como tudo o que requer atenção, foco, paciência, persistência, capacidade para lidar com frustrações que fazem parte da vida real. Se ajudar seu filho a vencer esses desafios soa como castigo, está na hora de rever muitos conceitos.

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