Como melhorar a relação com a criança usando a comunicação não-violenta?

Se você gravasse um dia inteiro de conversa com seu filho e ouvisse depois tudo que vocês conversaram durante um dia, todas as ordens, berros, choros, pedidos… Se tivesse que fazer uma análise de como foi a sua comunicação em ele, como você descreveria o que ouviu? Foi diálogo ou monólogo? Foram interações respeitosos ou mais autoritárias? Será que houveram mais ordens ou perguntas? Será que você o ouviu de verdade? Olhando no olho? Se conectou com ele genuinamente?

Bom, geralmente, ligamos o piloto automático assim quando acordamos e nos esquecemos que nos comunicar com nossos filhos pode ser um processo muito mais colaborativo do que é de verdade! Existem maneiras de estabelecer uma relação mais tranquila com seu filho e se conectar com ele de forma muito mais profunda do que você imagina. E é sobre isso que vamos falar hoje. Você já ouviu falar em Comunicação Não Violenta?

Comunicação Não Violenta: quatro pontos para se comunicar positivamente.

Já escrevei aqui um texto sobre Comunicação Não Violenta (CNV),  um processo de comunicação desenvolvido pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg. Muito mais do que uma técnica de linguagem, a CNV é um estado de consciência em que a compaixão, o respeito, a atenção e a empatia prevalecem entre as pessoas, através da comunicação. Basicamente, a Comunicação Não Violenta busca entender o que nos leva a agir de maneira violenta e como nos manter conectados à nossa natureza compassiva.

Para isso, a CNV se baseia em 4 componentes que habitam os diálogos entre pessoas:

1. Observação: Quando nos deparamos com uma situação que nos incomoda, o primeiro passo é observar o que está acontecendo de fato, sem julgamentos. Essa é a parte mais difícil. Mas, distanciar nosso olhar do nosso juízo de valores é um processo libertador.

2. Sentimento: Depois da observação, o passo seguinte é identificar e nomear o que sentimos em relação ao que observamos. Embora pareça simples, na prática, isso também é mais difícil do que imaginamos. Expor nossos sentimentos significa nos responsabilizar por eles e, ao mesmo tempo, mostrar nossa vulnerabilidade. Nem sempre estamos dispostos e abertos para isso.

3. Necessidade: Então, juntamente com os sentimentos, expressamos também nossas necessidades, valores e desejos que nos fizeram sentir de determinada maneira. Neste ponto, entender o que precisamos é fundamental.

4. Pedido: Com sentimentos e necessidades identificados e nomeados, pedimos que ações concretas sejam realizadas, de forma a atender nossas necessidades. Nesse ponto, a CNV ressalta que pedidos realizados por meio de uma linguagem positiva, têm mais chances de ser entendidos e realizados, do que através de um discurso negativo.

E como usar essa abordagem com meu filho/filha?

Primeira coisa: a CNV nos convida a agir com compaixão e empatia com nossos filhos. E só de entender (e praticar) esses dois aspectos, nossa relação com eles já é totalmente transformada. Quando escutamos com empatia, criamos um espaço seguro para que nosso filho para ser ele mesmo. Sem medo de ser julgado, sem receios de falar sobre seus sentimentos. E quando ouvimos nossos filhos nas suas essências e entendemos que existe uma necessidade por trás de todo comportamento e fala, é natural que ocorra uma empatia e uma conexão mais profunda. É a chamada escuta empática, que para Marshall Rosenberg, “empatia é esvaziar a mente e ouvir com todo o nosso ser”. Ou seja, é se colocar no lugar do outro, é ouvir sem julgamentos, é, antes de dar conselho, se abrir e perceber os sentimentos e necessidades do outro, com compaixão, respeito e atenção. Então, a dica prática é: fale menos e escute mais! Toda vez que seu filho apresentar alguma demanda, estiver chorando, dando uma birra, fazer um pedido (mesmo que absurdo), simplesmente escute! Esvazie a mente, o coração e escute. E você pode fazer isso com um bebé recém nascido, um adolescente e um filho adulto! Não é fácil praticar a CNV na totalidade, por isso, comece escutando mais ativamente e lembre-se que escutar não significa atender aos pedidos dos filhos. Você pode ser empática, e acolher a demanda e isso não significa que você está sendo permissiva. Significa que você está se conectando. E quando essa conexão acontece, você pode ter a certeza de que seu filho estará muito mais encorajado a agir melhor e, inclusive, mais disponível emocionalmente para ouvir um não, pois ele sabe que você está ali para ajudá-lo.

Vamos para um exemplo prático que aconteceu agora com meu filho de 4 anos. Fiz o prato para ele jantar. Coloquei na mesa e o chamei: filho, seu jantar está na mesa. Ele veio correndo, olhou para o prato e disparou a gritar: não queroooooooo!!!! Eu podia entrar na disputa de poder, obrigá-lo a se sentar à mesa ou ignorar e falar: se não quer comer, vai ficar com fome. Mas eu respirei fundo (sim, é preciso uma intenção muito forte, um desejo enorme de fazer diferente). Me abaixei, olho no olho, e comecei a observar a cena, tentando não julgar e simplesmente escutar o seu choro, sentimentos e necessidades por trás de seu comportamento. Resumindo, nossa conversa fluiu assim, com as seguintes perguntas, intercaladas de choro, respostas truncadas, mas que aos poucos (precisa de paciência) foram nos conectando.

“Percebo que não quer o seu jantar, filho. (OBSERVAÇÃO)

Gostaria muito de saber o que aconteceu. Fico muito preocupada quando você grita e não consigo entender o que você está querendo me dizer. (SENTIMENTO)

O que você realmente precisa? Eu preciso entender melhor para te ajudar. (NECESSIDADE)

Gostaria que você me dissesse mais claramente e sem gritar, o que você precisa. Você não gostou da comida? Do prato? Não está com fome? (PEDIDO – fui fazendo perguntas curiosas para que ele conseguisse elaborar melhor seu pedido)

Como ele percebeu que eu realmente estava disposta a ajudá-lo, fomos nos conectando. E ele, aos poucos, foi se acalmando e dizendo que ele não queria que tivesse misturado o angu no feijão, que ele gosta de comer separado. Justo! O que me custaria colocar mais um pouco de feijão e angu separados? Eu poderia ter o chamado para fazer o próprio prato, inclusive.

Logo, veja bem: a CNV não se trata apenas de um método de comunicação, mas uma maneira de enxergar a vida e as relações através da empatia e da compaixão. Será que observamos sem julgar? Expomos o que sentimos? Deixamos claro quais as nossas necessidades? Pedimos o que precisamos de forma positiva? Ouvimos com atenção e empatia? Provavelmente, na maior parte do tempo, a resposta para essas questões é não. Com uma vida diária atropelada por compromissos, horários e rotinas apertadas, é comum que não prestemos atenção em como nos comunicamos com os pequenos. Nesse sentido, a Comunicação Não Violenta está intimamente ligada à Criação com Apego e com a Disciplina Positiva e propõe uma relação baseada na escuta, no respeito mútuo, na segurança emocional e na comunicação positiva.

Quer saber mais sobre a Disciplina Positiva?
Acesse: https://bit.ly/pilulas-para-a-maternidade

O processo para alcançar essa forma de comunicação com os filhos é difícil e demanda muita paciência e atenção. Mas, comunicar com seu pequeno de forma positiva, pode colaborar para:

– Reduzir conflitos entre irmãos

– Entender o que está por trás do não dos pequenos

– Fortalecer a autonomia e autoestima da criança

– Estabelecer uma relação baseada na cooperação e na confiança

– Expressar frustrações, sem culpa

– Expor desejos e necessidades de forma que o pequeno ouça e compreenda

Me conta aqui se começar a praticar a CNV em casa, hein? Vou ficar muito feliz em saber!

Quer saber como criar uma rotina saudável para seus filhos?

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